O Mistério da Vera Cruz Revelado!
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O Nome que o Diabo Roubou
Comecemos onde tudo começou, em Jerusalém, corria o ano de 326.
Helena, mãe do imperador Constantino, aquele que dera à Cristandade o direito de existir, tinha à volta de oitenta anos quando resolveu fazer o que ninguém antes dela ousara: ir a Jerusalém procurar fisicamente a cruz de Cristo.
Não uma imagem dela. Não uma memória. A cruz. A madeira.
Haviam passado trezentos anos. O Gólgota estava soterrado sob aterros e templos pagãos, deliberadamente sepultado por gerações de imperadores que quiseram apagar aquele sítio da face da terra.
Helena mandou escavar. E, conta a tradição, encontraram três cruzes, porque três homens tinham morrido naquela manhã, e ninguém sabia qual delas era a do meio.
O que aconteceu a seguir é lenda, e como lenda o digo. Reza a tradição que trouxeram uma mulher moribunda e a fizeram tocar nas três, uma a uma. Às duas primeiras, nada. À terceira, ergueu-se curada.
Foi assim que aquele madeiro recebeu o nome pelo qual a Cristandade o conheceria durante mil e setecentos anos: Vera Crux. A cruz verdadeira.
A palavra vera não precisava de dizer que era mais sagrada, isso era evidente. Dizia outra coisa: que era a autêntica, a que era de facto a de Cristo, e não uma das outras duas. A palavra que hoje nos soa a devoção nasceu, afinal, de uma dúvida: qual das três era a verdadeira?
E logo começou a desfazer-se.
Não por descuido, mas porque toda a gente queria um bocado.
Já por volta do ano de 350, Cirilo, bispo de Jerusalém, escrevia que o mundo inteiro estava cheio de fragmentos daquela cruz.
Repartiram-na, dividiram-na, subdividiram-na. Cada lasca era engastada em ouro e prata, encerrada em relicários, oferecida a reis, disputada por catedrais.
Séculos mais tarde, um Calvino azedo havia de escrever que, juntando todos os pedaços venerados na Europa, se carregava um navio.
Mas para os homens da Idade Média aquilo não era madeira. Era matéria que tocara o corpo de Deus.
Era o único objecto físico do universo que estivera em contacto com a morte e a ressurreição ao mesmo tempo. Levar uma lasca daquilo ao peito não era piedade. Era armadura.
E convém medir a escala disto, porque é ela que explica tudo o que se segue. Ao longo de toda a Idade Média, centenas de igrejas, mosteiros, confrarias e hospitais por essa Europa fora foram postos sob a invocação da Vera Cruz.
A própria Igreja lhe dedicava uma das maiores festas do seu calendário, a Exaltação da Santa Cruz, a 14 de Setembro.
Não estamos, portanto, diante de uma designação erudita ou obscura. Quando um capitão português baptizasse fosse o que fosse com aquele nome, estaria a usar duas das palavras mais conhecidas da Cristandade inteira.
Como um pedaço da Cruz foi parar ao Alentejo?
E é aqui que entra Portugal.
Em 1258, um homem chamado João Peres de Aboim, senhor de Portel e braço direito de D. Afonso III, doou o mosteiro de Marmelar à Ordem de São João de Jerusalém, os Hospitalários.
Recebeu-o, em nome da Ordem, um frade da região com um nome que parece saído de romance: Frei Afonso Pires Farinha.
Este Farinha era um homem viajado, cruzado, gente de guerra e de fé. E a tradição atribui-lhe o feito de ter trazido da Palestina, por volta de 1278, no rescaldo da Sétima Cruzada, um fragmento do Santo Lenho.
A relíquia vinha destinada à Sé de Évora. Nunca lá chegou.
Conta-se, e sublinho que é tradição e não documento, que um prodígio a impediu de seguir viagem. Que os que a transportavam não conseguiram levá-la dali. Que a Cruz, por assim dizer, escolheu ficar.
E ficou, num templo que já era antigo quando os hospitalários lhe puseram as mãos, erguido sobre uma construção visigótica do século VII, na planície onde ainda hoje está.
Foi tal a devoção que se criou em volta daquela lasca que a própria aldeia mudou de nome. Algures no decurso do século XIV, e documentadamente já em 1397, aquela aldeia deixou de ser apenas Marmelar e passou a chamar-se Vera Cruz.
Reparai bem na data, porque é ela que faz toda a diferença nesta história. Estamos no século XIV. Faltam mais de cento e cinquenta anos para Cabral. E já havia, no coração do Alentejo, um lugar português chamado Vera Cruz.
A relíquia que foi à guerra
Em 1340, os reinos cristãos da Península jogaram tudo numa só tarde.
Uma coligação muçulmana de merínidas e granadinos atravessara o Estreito e ameaçava desfazer séculos de Reconquista.
Castela e Portugal juntaram forças no rio Salado. E, à frente das tropas portuguesas, o Prior da Ordem do Hospital, Álvaro Gonçalves Pereira, empunhou a relíquia do Santo Lenho de Marmelar como quem empunha um estandarte.
Ganharam. Ganharam de tal maneira que o Salado ficou a ser uma das grandes datas da memória peninsular.
E a vitória foi atribuída, em boa parte, àquele bocado de madeira. Tão determinante se julgou a sua presença que, depois da batalha, a relíquia foi dividida ao meio: uma parte ficou em Vera Cruz de Marmelar, a outra seguiu finalmente para a Sé de Évora, o destino que sessenta anos antes lhe fora negado.
Guardai o nome daquele prior, porque a história portuguesa gosta destas simetrias. Álvaro Gonçalves Pereira era pai de Nuno Álvares Pereira. E a tradição atribui ao próprio Condestável, o vencedor de Aljubarrota, o herói fundador da dinastia de Avis, a encomenda do relicário de prata dourada onde a relíquia passou a ser guardada.
Ou seja: o homem que salvou a independência de Portugal mandou fazer o cofre para o pedaço da Cruz que o pai levara à guerra.
A cruz que se fez à vela
Passa um século. Portugal lança-se ao mar.
E convém perceber uma coisa que hoje nos escapa, habituados que estamos a ver os Descobrimentos como empresa comercial. Para os homens que iam naqueles navios, aquilo era, também e declaradamente, uma missão da Cruz.
A prova ia pintada por cima das cabeças deles. As velas das naus levavam a cruz da Ordem de Cristo, a ordem portuguesa criada em 1319 para herdar em Portugal os bens e a memória dos Templários, extintos poucos anos antes.
Aquela cruz vermelha que qualquer criança portuguesa reconhece não era um enfeite náutico. Era a insígnia de uma ordem religioso-militar que financiava e enquadrava a expansão.
Quem via aparecer no horizonte uma nau portuguesa via primeiro a Cruz.
No reinado de D. Manuel I, esta mística atingiu o auge. O rei acreditava-se instrumento de um desígnio, e o baptismo das terras achadas seguia essa gramática: dava-se aos lugares nomes de santos, de festas litúrgicas, do dia em que se avistavam. A geografia do mundo foi sendo escrita com o calendário da Igreja.
Foi com esta cabeça que Cabral chegou àquela praia na Semana de Páscoa de 1500.
Porquê Vera Cruz, e não Ressurreição, Redentor, Salvador, Espírito Santo?
O que se passou a seguir está documentado com uma precisão rara, e é uma das histórias mais curiosas da nossa língua: a de uma terra que mudou de nome quatro vezes em pouco mais de três anos.
Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada, escreve ao rei que o capitão pôs ao monte o nome de Monte Pascoal e à terra o nome de Terra da Vera Cruz.
Depois, ao fechar a carta em Porto Seguro, a 1 de Maio de 1500, assina-a de outra maneira ainda: da vossa Ilha da Vera Cruz. Chamava-lhe ilha porque ninguém sabia, naquele momento, se aquilo era uma ilha ou o princípio de um continente.
E é preciso parar aqui, porque há nesta escolha uma lógica que o texto inteiro vem a preparar.
A pergunta é justa: havia dezenas de invocações possíveis. Porquê Vera Cruz, e não Ressurreição, Redentor, Salvador, Espírito Santo?
A resposta está no calendário, não na inspiração. Monte Pascoal vinha da Páscoa, que era a semana em que chegaram.
E a cruz alta foi erguida a 1 de Maio, véspera de uma das maiores festas litúrgicas da Cristandade: a Festa da Invenção da Santa Cruz, celebrada no dia 3 de Maio.
O nome daquela festa não era ornamento: era a comemoração anual de um acontecimento preciso, a descoberta da Cruz por Santa Helena em Jerusalém. Aquilo que abre este texto.
Repare-se no que o calendário fez ali. Os homens que erguiam uma cruz numa praia desconhecida estavam, sem o saber, a repetir o gesto de Helena no Gólgota, e a fazê-lo na véspera exacta do dia em que a Cristandade comemorava esse gesto.
O nome veio do calendário, como vinham todos os nomes da expansão, e o calendário, naquele dia, mandava invocar a Cruz verdadeira.
Mas há mais. Quando aqueles homens escreveram Vera Cruz no papel, não estavam a traduzir latim de improviso nem a inventar coisa nenhuma. Aquele nome existia já no seu próprio país, e existia como lugar onde se podia entrar a pé: havia mais de cem anos que a aldeia alentejana de Vera Cruz, a poucos quilómetros de Portel, se chamava assim.
Não há documento nenhum que prove que algum deles se lembrou de Marmelar naquela praia, e seria leviano afirmá-lo.
Mas o nome que por pouco não ficou a designar o maior país da América não era, para quem o escreveu, uma abstracção de teólogos. Era também o nome de uma aldeia de casas brancas no Alentejo.
No começo de 1501, num regimento entregue ao navegador João da Nova, a chancelaria régia já lhe chama Ilha da Cruz.
Em 29 de Julho desse mesmo ano, quando D. Manuel escreve aos Reis Católicos a dar-lhes notícia do achamento, o nome que usa é Terra de Santa Cruz.
Repare-se no que aconteceu ali, discretamente. Vera Cruz é a cruz histórica, o madeiro concreto de Jerusalém, aquele que estava no Alentejo dentro de um cofre. Santa Cruz é a cruz devocional, genérica, universal. Em pouco mais de um ano, o nome afastou-se da relíquia e aproximou-se do símbolo.
Mas nem um nem outro sobreviveriam.
Porque já em 1502, no planisfério de Cantino, o primeiro mapa conhecido daquela costa, o topónimo aparece junto a Porto Seguro na forma de um Rio de Brasil.
Repare-se no que ali está a nascer: o nome não vem de nenhum santo nem de nenhuma data litúrgica. Vem de uma mercadoria, uma madeira que dava um vermelho intenso e que valia dinheiro nos tintureiros da Europa.
A madeira chamava-se pau-brasil e crescia em abundância naquela costa. Tinha um cerne de um vermelho vivo que, fervido em água, soltava uma tintura com que se tingiam tecidos: mergulhavam-se os panos naquela solução a ferver até absorverem a cor, e o resultado era um vermelho intenso, cor de brasa.
Foi daí que veio o nome. Brasa, brasil.
Um pau que ardia de cor sem se queimar. Nos tintureiros da Europa, aquele vermelho valia dinheiro a sério, e os navios que iam à costa enchiam os porões dele como quem enche de ouro.
E a mercadoria comeu o santo.
Em 1527, um atlas ainda tenta o compromisso e escreve as duas coisas ao mesmo tempo, Terra de Santa Cruz do Brasil, como quem não quer desagradar a ninguém.
Poucos anos volvidos, nas cartas náuticas, já só se lê Brasil.
O Diabo entra na história
E aqui chegamos ao que, para mim, é a parte mais extraordinária de tudo isto.
Quando os cronistas portugueses do século XVI perceberam o que se passara, não escreveram aquilo como uma curiosidade linguística. Escreveram-no como uma derrota espiritual. E identificaram um culpado.
João de Barros, o grande historiador da expansão, sustentou nas suas Décadas que fora o demónio a agir.
Que o Maligno, vendo chegar a Portugal carregamentos cada vez maiores de pau de tinta, trabalhara para que o nome da madeira se vulgarizasse na boca do povo e apagasse o nome do lenho em que Cristo morrera.
Para Barros, aquilo era literalmente uma batalha travada e perdida: importava agora mais o nome de um pau que tinge panos do que o daquele pau que deu tintura a todos os sacramentos por que somos salvos.
Pero de Magalhães Gandavo foi mais longe, e o seu gesto merece que nos demoremos nele. Gandavo sabia perfeitamente que toda a gente já dizia Brasil.
Sabia que a batalha estava perdida.
E mesmo assim, num acto de resistência deliberada, intitulou o seu livro História da Província de Santa Cruz, como quem desafia o uso corrente com o nome que lhe fora roubado. Explicou porquê, com uma franqueza que ainda hoje impressiona: para magoar o Demónio, que tanto trabalhava por extinguir a memória da Santa Cruz e desterrá-la do coração dos homens.
Não resultou. O nome comercial venceu, e venceu para sempre.
E convém dizer isto com toda a clareza, para que não se leia como figura de estilo nem como pitoresco de época: não era metáfora literária.
Barros e Gandavo escreviam dentro da visão providencialista do século XVI, na qual a história dos homens era o palco de um combate verdadeiro entre Deus e o Demónio.
O que ambos estavam a afirmar era uma coisa muito maior do que a simples mudança de um nome. Estavam a dizer que o Demónio vencera Cristo pelo comércio.
Que fora a cobiça, a ambição, o peso do negócio que apagara o nome sagrado e o substituíra pelo de uma mercadoria. Que a missão evangelizadora, razão oficial de toda a empresa, fora comida por dentro pelo lucro, até o próprio nome da terra deixar de falar de Deus e passar a falar de uma madeira de tingir panos.
Homens cultos, letrados, funcionários da Coroa, deixaram escrito em obras impressas que Satanás em pessoa roubara o nome àquela terra, e que o fizera não com exércitos, mas com carregamentos.
Os nomes não mentem: dizem sempre o que os homens foram lá fazer.
Enquanto se ia em nome da Cruz, a terra era da Cruz. Quando se passou a ir carregar madeira, a terra passou a chamar-se pela madeira.
O nome que sobreviveu
Um pormenor final, e é ele que fecha o círculo.
Do outro lado do Atlântico, o nome perdeu-se.
Duzentos milhões de pessoas vivem hoje num país cujo nome vem de uma madeira de tinturaria, e quase nenhuma sabe que esteve a um passo de nascer numa terra chamada Vera Cruz.
Houve até quem fizesse notar que os naturais daquela terra bem poderiam hoje chamar-se veracrucianos.
Mas na planície alentejana, a poucos quilómetros de Portel, o nome aguentou-se.
A aldeia ainda se chama Vera Cruz.
A relíquia ainda lá está, no seu cofre medieval encastrado na parede, fechada a sete chaves. E todos os anos sai à rua, em procissão, carregada por gente que acredita que aquela lasca de madeira cura sobretudo os males do espírito, e por isso ali se fizeram, ao longo dos séculos, exorcismos que a memória local ainda guarda.
O nome que atravessou o Atlântico numa caravela e se perdeu num continente inteiro sobreviveu numa aldeia de casas brancas onde quase ninguém vai.
O Diabo, que segundo João de Barros ganhou a batalha do outro lado do mar, perdeu-a no Alentejo.
Nota histórica
Distingo aqui, como é meu costume, o que é documento do que é tradição.
São factos documentados: a sucessão dos nomes dados ao território brasileiro, que se acompanha na Carta de Pero Vaz de Caminha (1 de Maio de 1500, original na Torre do Tombo), onde se lê Terra da Vera Cruz no corpo e Ilha da Vera Cruz na despedida; no regimento régio a João da Nova (1501), com Ilha da Cruz; e na carta de D. Manuel I aos Reis Católicos (29 de Julho de 1501), com Terra de Santa Cruz. A aparição precoce do topónimo comercial está no planisfério de Cantino (1502), o mais antigo mapa conhecido daquela costa.
A Festa da Invenção da Santa Cruz, que comemorava a descoberta da Cruz por Santa Helena, celebrava-se a 3 de Maio, dois dias depois da data da carta de Caminha; a prática de baptizar as terras achadas segundo o calendário litúrgico era corrente na expansão (Monte Pascoal veio da Páscoa), e a proximidade daquela festa é o enquadramento mais sólido para a escolha do nome.
A existência e localização da relíquia do Santo Lenho na Igreja de Vera Cruz de Marmelar, sob guarda da Ordem do Hospital, e a mudança do nome da povoação a partir do século XIV, estão estabelecidas na bibliografia sobre as ordens militares e o património de Portel.
São tradição, e como tal foram narradas: a descoberta da Cruz por Santa Helena em 326 e o milagre da mulher curada, transmitidos pelos autores cristãos dos séculos IV e V; o prodígio que terá impedido a relíquia de seguir para Évora; a atribuição a Frei Afonso Pires Farinha do transporte do fragmento; e o papel decisivo do Santo Lenho na Batalha do Salado (1340), empunhado pelo Prior do Hospital Álvaro Gonçalves Pereira, bem como a encomenda do relicário por Nuno Álvares Pereira.
É inferência, e não facto: a coincidência entre o topónimo alentejano e o nome dado por Cabral está documentada de ambos os lados, mas nenhuma fonte estabelece que os homens de 1500 tivessem em mente a aldeia de Portel. O nome era, como se viu, corrente em toda a Cristandade.
Não tem qualquer suporte documental, e por isso não figura neste texto senão para ser desmentido, a ideia por vezes repetida de que o próprio reino de Portugal teria sido chamado Terra da Vera Cruz antes do Brasil. Não existe fonte contemporânea que o sustente.
Para quem quiser ir mais fundo: a Carta de Caminha e as cartas régias manuelinas, como fontes primárias incontornáveis; a Ásia de João de Barros (Primeira Década, 1552) e a História da Província de Santa Cruz de Pero de Magalhães Gandavo (1576), para a leitura demonológica da mudança de nome; e, do lado da investigação moderna, o estudo de Laura de Mello e Souza sobre o nome do Brasil, que enquadra a disputa entre a designação mercantil e a missionária.
Sobre o Santo Lenho português, a bibliografia das ordens militares e os estudos sobre a comenda hospitalária de Vera Cruz de Marmelar são o ponto de partida.
Mas a melhor fonte de todas não está em nenhuma biblioteca. Está numa aldeia a poucos quilómetros de Portel, numa igreja que se abre a quem bater à porta, e num cofre que ali continua, fechado a sete chaves, à espera de quem queira ver com os próprios olhos aquilo de que este texto só pôde falar com palavras.